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 Como falar de dinheiro com os filhos? 

Edição 36 - 25/3/2009

 
Em entrevista ao portal COMO INVESTIR, a educadora Cássia D´Aquino, especialista em finanças, fala sobre as melhores estratégias para os pais ensinarem as crianças a lidar com o dinheiro.


Atire a primeira pedra o pai que nunca ficou inseguro ao negar um pedido insistente do filho para comprar mais um brinquedo. Será que foi a melhor atitude? Aquele que cedeu ao apelo consumista também não ficou mais confortável. O assunto, sem dúvida, é polêmico. "Um dos grandes desafios dos pais é lidar com as questões financeiras com os filhos", afirma a educadora Cássia D'Aquino, coordenadora do Programa de Educação Financeira em inúmeras escolas do País. Não é para menos. "O dinheiro pode ser um instrumento que contribui para a formação de um adulto mais seguro nas suas escolhas e decisões".

Nessa empreitada, a escola e outros instrumentos podem ser bons aliados, mas a atuação dos pais é determinante. "O que realmente faz a diferença na maneira como a criança percebe o dinheiro é o exemplo dos pais", destaca.

Nesta entrevista ao portal COMO INVESTIR, a educadora alerta também para os erros cometidos na educação financeira. "Garotos na faixa de cinco anos não vão assimilar os conceitos financeiros. Eles precisam apenas aprender a relacionar o dinheiro com o seu dia a dia", explica a autora de vários livros pedagógicos sobre o tema e representante do Brasil no Global Financial Education Program, iniciativa voltada para o desenvolvimento da educação financeira da população de baixa renda em todo o mundo.

Como Investir - Se os pais não têm uma relação bem resolvida com o dinheiro, como eles podem falar do assunto de uma maneira clara com os filhos?
Cássia D'Aquino
- É preciso se esforçar. A situação pode ser comparada com aquela do pai que fuma, mas não permite que o filho fume. Ele precisa explicar que na época dele a situação era diferente, não havia tanta informação. Tem que dizer: "gostaria que com você fosse diferente". E precisa propor: vamos nos esforçar juntos para que isso aconteça.

Como Investir - Com essa proposta de fazer diferente com os filhos, os pais também podem aproveitar a oportunidade para aprender a lidar com dinheiro de uma maneira mais eficiente?
Cássia D'Aquino
- Há um processo muito delicado na relação entre pais e filhos. Os pais não somente educam, mas também vão aprendendo novas habilidades através da maneira que seus filhos atuam. Um exemplo claro é a geração que já vem crescendo preocupada com o meio ambiente. As crianças e adolescentes de hoje encaram certas questões de maneira bem diferente do que os adultos. As crianças são rigorosas com os pais e cobram um comportamento adequado. Não aceitam, por exemplo, que joguem um papel pela janela do carro. Em relação ao dinheiro, tenho essa mesma impressão. Quando numa família a pessoa mais sensata na hora das compras é a menor, com 1,30 metro de altura, há no mínimo um constrangimento dos pais. Eles vão se preocupar em ser mais racionais em relação aos gastos. Atualmente, há uma geração com uma noção positiva em relação ao dinheiro.

Como Investir - A geração mais nova sabe lidar melhor com o dinheiro? De onde vem essa educação financeira?
Cássia D'Aquino
- Em primeiro lugar, acho que para o pessoal que hoje tem cerca de 20 anos, que cresceu com o Real e não se lembra de outras moedas, é mais „natural' planejar os gastos e fazer um orçamento. Um exemplo disso é que eles entram no primeiro ano do ensino médio e já começam a planejar a festa e a viagem de formatura, abrindo uma poupança para isso. Para a geração dos pais deles, isso era impossível. Eles não conseguiam fazer isso nem para planejar um fim de semana. Viveram os tempos tumultuados da inflação, quando os preços disparavam no mesmo dia. A estabilidade da moeda brasileira é um dado muito significativo em relação às novas gerações: dá a possibilidade de um melhor planejamento financeiro.

Como Investir - Hoje as escolas já têm um papel importante na educação financeira das crianças?
Cássia D'Aquino
- Embora haja iniciativas muito interessantes e pertinentes, me parece que ainda é apenas uma questão de boa vontade. A maioria das escolas ainda não trata o assunto com métodos eficientes. A questão é abordada de maneira superficial. O complicado é que, na medida em que a educação financeira infantil ganha maior dimensão e popularidade, surgem também muitos erros nos modelos de aprendizagem. Você não pode colocar uma criança de cinco anos para ouvir uma aula, por exemplo, sobre fundos de investimento. Ela vai ouvir e repetir como um papagaio tudo o que foi falado, mas aquilo não faz nenhum sentido para ela.

Isso é uma interpretação errônea dos conceitos de aprendizagem. É correto afirmar que a maneira como o ser humano se relaciona com o dinheiro é construída até os cinco ou seis anos de idade. Com isso, estou falando da construção das bases da compreensão dela sobre as relações financeiras. Não é uma questão de conceitos financeiros. Uma coisa é bem diferente da outra. Os conceitos só devem ser aplicados numa idade mais avançada.

Como Investir - Então, uma criança nesta faixa etária, que aprende conceitos financeiros, não está necessariamente desenvolvendo a capacidade para lidar com o dinheiro na vida adulta?
Cássia D'Aquino
- É justamente isso. Se uma criança ouve sobre fundos de investimento na escola, um mês depois ela já se esqueceu, porque isso não é assunto de criança, não faz nenhum sentido para a vida dela no momento. Se você quer que na vida adulta ela possa lidar bem com o dinheiro, há uma série de pontos que devem ser estimulados.

Como Investir - Como os pais podem estimular a criança a desenvolver essa habilidade para lidar com as finanças?
Cássia D'Aquino
- Mostrar para a criança quais são as escolhas dela e quais os desdobramentos dessas escolhas. É fundamental fazer com que ela perceba que os seus atos têm consequências. Essas medidas tornam a criança mais confiante em sua capacidade de perceber situações, resolver problemas e fazer escolhas apropriadas aos interesses dela. Dessa forma, teremos um adulto apto a escolher o produto financeiro correto. É possível evitar, por exemplo, a formação daquele sujeito suscetível, que entra na bolsa e acha que vai ficar rico só porque comprou um livro que ensina o quanto é fácil ganhar R$ 1 milhão. Esse é um sujeito sem consistência, sem capacidade de tomar decisões sobre o seu destino. Se deixa levar pelas ilusões.

Como Investir - Para as crianças até seis anos, quais são as oportunidades para mostrar essas questões financeiras no dia a dia?
Cássia D'Aquino
- O que realmente faz diferença na maneira como a criança percebe o dinheiro é o exemplo dos pais. Não tem páreo para mais ninguém, nem escola nem amigos. No cotidiano, as crianças são bastante capazes de participar de atividades que envolvem o orçamento doméstico da família. Uma delas é a organização da lista do supermercado. O filho pode ajudar a verificar o que é preciso comprar. Depois, pode participar da compra no supermercado. Um exercício pode ser o seguinte: se ele identificou que precisava comprar sabonete, pode ser responsável pela compra desse item no supermercado. O simples fato dele perceber que a família faz uma lista e a cumpre, ensina a essa criança sobre a importância de elaborar e executar o planejamento financeiro. Por outro lado, uma família que não se organiza e vai para as compras de improviso, abre espaço para a criança querer levar para o carrinho tudo que ela quiser - chocolate, bolacha e brinquedos. Ela tem dificuldade para entender por que não pode comprar qualquer coisa. Na sua percepção, os pais que entram improvisando no supermercado estão fazendo exatamente isso. É preciso lembrar que crianças até os dez anos são muito concretas. Tudo que se pretende ensinar nessa fase deve ser baseado em algo que ela possa perceber de maneira imediata.

Como Investir - O que fazer quando a criança começa a chorar quando o pai se recusa a comprar um chocolate?
Cássia D'Aquino
- Brinco com isso da seguinte forma: esse tipo de escândalo em supermercado ou loja de brinquedos está no contrato dos filhos, assim como está no contrato dos pais resistirem a isso. O consolo é que esse comportamento vai passar. Eu nunca vi um adulto se jogando no chão do supermercado porque querem comprar um determinado produto.

Os pais é que devem saber como se comportar numa hora dessas para segurar o tranco. Esse pode ser o resultado de uma relação complicada com o dinheiro. O ideal é criar condições para minimizar as chances desse vexame, como fazer a lista de compras.

O planejamento é a melhor ferramenta para isso. Pode-se, por exemplo, convidar a criança para participar do planejamento de uma viagem de fim de ano. Ela pode estar presente na hora da discussão e escolha do destino, preços das passagens e hotel. Uma criança na faixa dos 10 anos em diante já deve participar, inclusive, da poupança para a viagem: quais aplicações são mais indicadas, se deve cortar alguma despesa do dia a dia para aumentar a fatia de dinheiro que vai para a aplicação. É importante a criança acompanhar a evolução desse planejamento.

Como Investir - Diante do atual cenário de instabilidade econômica, em algumas famílias os responsáveis tiveram uma redução de renda ou até mesmo perderam o emprego. Esses assuntos devem ser falados com os filhos?
Cássia D'Aquino
- É um assunto delicado. É importante falar com a criança sobre as mudanças no orçamento da família. Elas são dotadas de uma capacidade muito grande para perceber o ambiente. Se você não diz, a criança vai perceber de algum jeito. Ela vai notar que algo vai muito mal. Se os pais não explicam, o filho vai começar a fantasiar e imaginar cenários muito piores do que o real.

Como Investir - Mas como se comunicar com a criança?
Cássia D'Aquino
- Toda roupa suja deve ser lavada longe das crianças. No caso de uma demissão, por exemplo, o casal deve sentar para conversar e desabafar só entre eles. Isso é um assunto de adulto. Depois, vencidas as emoções, os pais precisam definir concretamente as ações que vão tomar para enfrentar da melhor maneira o problema: estratégias para conseguir outro emprego, redução de despesas, etc. Só depois que todas as decisões para resolver a situação estiverem estabelecidas é que se deve falar com as crianças. O casal deve esclarecer a situação real: o que aconteceu, como estão e as providências que serão tomadas.

O que apavora a criança é perceber que sua casa e sua família estão desgovernadas. Para evitar essa situação, é saudável, inclusive, informar para elas que há um fundo de emergência - claro, se houver - e também sobre a necessidade de cortes de gastos.

Como Investir - Há famílias que acreditam que os gastos com as atividades dos filhos, como o balé ou a aula de piano, são intocáveis mesmo quando há uma crise no orçamento. O esforço é justificável?
Cássia D'Aquino
- Os pais fazem isso com a melhor das intenções para os filhos, mas fazem também para proteger a si próprios. Têm medo da reação dos filhos. Essa percepção é errada. Pelo contrário, as crianças são muito sensíveis ao apelo dos pais numa hora de aperto. É impressionante como uma criança ou adolescente responde prontamente quando percebe que está sendo chamado a ser parte responsável pela família. Além disso, há um peso muito negativo quando uma adolescente percebe que a família está passando aperto, enquanto ela faz balé numa escola cara. "O que eles esperam que eu vire?".

Como Investir - A mesada é uma boa ferramenta para a educação financeira dos filhos?
Cássia D'Aquino
- É uma das maneiras, dentre muitas outras, de ensinar a lidar com o dinheiro. Uma maneira muito chata, porque você não pode esquecer o dia da mesada, o valor exato e o destino do dinheiro, mas quando a mesada é bem dosada o resultado é realmente muito bom. Só se preconiza a mesada para depois dos onze anos. Antes disso a criança não tem capacidade real para entender a noção de mês e a passagem do tempo. Para crianças mais novas, o ideal é a chamada semanada.

Pode ser um excelente instrumento para educação financeira, desde que os pais estejam atentos ao valor, à regularidade, à intenção da mesada. O pagamento não deve ser cortado como forma de castigo por uma atitude errada do filho.

A intenção da mesada é possibilitar o planejamento à criança. Se por qualquer motivo o dinheiro desaparece, ela não consegue se planejar. A principal função da mesada é fazer com que a criança possa cometer pequenos erros, com quantias insignificantes, para que na vida adulta ela não venha a cometer erros realmente desastrosos com quantias significativas.

Como Investir - Para a criança de onze anos, qual deve ser o destino do dinheiro da mesada?
Cássia D'Aquino
- Quanto mais madura a criança, maior a possibilidade de assumir compromissos com aquele dinheiro. Nem sempre isso está vinculado à idade. Os pais devem prestar atenção, saber se o filho já está preparado para pagar seu lanche, comprar roupas, etc. Para evitar erros, o ideal é começar devagar para perceber como o filho reage. A mesada, primeiro, pode ser apenas para os gastos nos passeios. Depois já se pode incluir o lanche da escola.

É legal sentar com os filhos e conversar sobre isso. Saber, por exemplo, o que se come na cantina da escola e quanto isso pode custar por semana. Explicar que não é possível ir ao cinema todo dia. A proposta é compor um orçamento junto com a criança. O filho ganha consciência para tornar-se um negociador, assim evita chegar na vida adulta sem capacidade de argumentar. É um processo muito mais educativo do que simplesmente definir quanto é a mesada e como deve ser gasta.

Como Investir - Há valores mínimos por idade?
Cássia D'Aquino
- Até dez anos, funciona bem um cálculo de R$ 1 para cada ano da criança, por semana. Um pouco mais tarde, passa para algo como R$ 2 ou R$ 3 por ano da idade da criança, já no formato de mesada. Mais tarde outro acréscimo, subindo para R$ 3 ou R$ 4 por semana, também no formato mensal.

A mesada tem hora para começar e hora para acabar. Depois dos 18 anos, é o momento de os pais avaliarem como fazer a retirada progressivamente, colocando este sujeito no mundo para ele „ser gauche na vida' (fazendo menção ao poema do Carlos Drummond de Andrade que retrata os desafios de vencer na vida.

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