"Uma mudança de cultura que vai beneficiar toda a indústria de fundos de investimentos". É dessa maneira que Rosaline Nunes, membro das comissões de Produto de Varejo e de Educação da Anbid, analisa a adoção da prática do suitability, ou API (Analise do Perfil do Investidor) na indústria de fundos de investimento. O mecanismo, que vai aferir se o perfil do investidor está adequado à sua carteira, entra em vigor a partir de janeiro de 2010. Mas os bancos e todas as instituições que lidam com produtos de investimentos estão se preparando há mais de dois anos para a introdução dos questionários que vão mudar, para melhor, o panorama dos investimentos e dos investidores. Rosaline destaca que é muito importante o investidor responder o questionário com muita atenção. E recomenda: "O investidor não precisa conhecer profundamente o mercado, mas precisa se interessar. Quando vamos comprar um carro, fazemos pesquisa e avaliamos as condições. É a mesma coisa."
A seguir, a entrevista concedida por Rosaline Nunes ao Portal Como Investir.
COMO INVESTIR - Qual a data para a entrada em vigor da prática do suitability/API?
ROSALINE - A partir de janeiro de 2010, todas as instituições que lidam com produtos de investimento terão de aplicar os questionários para avaliar o perfil do investidor, uma prática do que no mercado internacional é chamado de suitability. A partir daí, o investidor terá condições de saber se determinado produto é adequado ao seu perfil. As instituições já estão discutindo esse processo desde 2007 e agora avaliam internamente como será, na prática, a adoção desse modelo. Essa é a próxima etapa.
COMO INVESTIR - As instituições estão preparadas para esta nova etapa?
ROSALINE - Estamos nos preparando para poder começar 2010 num novo cenário, com uma nova visão do mercado. É uma mudança cultural, uma mudança de paradigma. Para isso, as instituições precisam rever estruturas de tecnologia, de venda e outras etapas. É uma grande mudança.
COMO INVESTIR - Qual a expectativa das instituições para as novas regras?
ROSALINE - Será um marco nessa indústria, porque vamos começar a lidar com os clientes de outra forma. O cliente vai perceber, na hora em que estiver buscando um produto de investimento, um approach (abordagem) diferente do banco. Antes ele poderia comprar um produto de investimento sem nenhuma orientação. Agora, antes de tomar uma decisão, vai responder a várias perguntas que vão identificar se aquele produto está adequado ou não ao seu perfil de risco.
COMO INVESTIR - Quais os ganhos para o investidor? Como isso deve funcionar na prática?
ROSALINE - O principal relacionamento do investidor continuará sendo com o gerente de banco, esse processo não muda. O que vai mudar será esse apoio adicional à decisão de compra. Quando se pensa hoje num cenário de queda na taxa de juros, o investidor vai ter mais disposição para buscar produtos mais sofisticados e com maiores possibilidades de ganhos. O suitability chegou no mer cado brasileiro no momento certo. Antes de o investidor sair em busca de mais rendimento, o banco irá verificar se o perfil do cliente é adequado ao produto. A decisão final será do cliente, mas ele terá conhecimento do seu perfil e de um possível descompasso com o produto escolhido.
Em 2010, o investidor vai passar por uma série de perguntas, que permitem que ele tenha acesso a maior transparência quanto ao cenário econômico e sobre ele mesmo. Dessa maneira, poderá perceber, por exemplo, que não tem apetite para uma aplicação mais agressiva e terá de se contentar com menor rentabilidade.
COMO INVESTIR - Já existe em outros países? O Brasil se inspirou em qual modelo?
ROSALINE - Suitability não é novidade para os países desenvolvidos. Fomos buscar vários exemplos, de Hong Kong, Londres, nos EUA e na Holanda. Essa discussão já vem de algum tempo, é uma coisa maturada. Debatemos com os bancos, as instituições, a Comissão de Valores Mobiliários. Agora estamos na fase de execução. Cada banco está elaborando seu próprio modelo de questionário, mas a base é a mesma. As perguntas são do tipo: idade, se já participou do mercado financeiro, objetivos, expectativas no médio e longo prazos, se tem experiência com investimentos, se conhece os diversos tipos de aplicação, entre outras questões que apontam o perfil do cliente.
COMO INVESTIR - A responsabilidade final é do investidor? Se, depois que responder ao questionário, ele perceber que o produto não está adequado para o seu perfil, ele pode investir assim mesmo?
ROSALINE - A decisão final de investimento é sempre do cliente. A vantagem dessa transparência é que ele estará muito mais consciente da decisão que está tomando. Saberá o que está fazendo.
COMO INVESTIR - Qual a importância do investidor responder as questões com bastante atenção e sinceridade?
ROSALINE - É importante levar a sério e responder com sinceridade, porque esse mecanismo vai ajudá-lo. Quanto mais claro e transparente ele for, melhor para ele e para o banco. Uma resposta errada vira orientação inadequada para aquele investidor. O investidor não precisa conhecer profundamente o mercado, mas precisa se interessar. Quando vamos comprar um carro, fazemos pesquisa, avaliamos as condições. É a mesma coisa. Também é importante ter disciplina. Tudo isso ajuda na composição de uma carteira.
COMO INVESTIR - O investidor terá uma cópia do seu perfil? Pode alterá-lo quando quiser?
ROSALINE - Sim, pode ter. A cada novo investimento ele passará por um questionário.
COMO INVESTIR - E quem não quiser responder, por não se sentir a vontade?
ROSALINE - Não vai responder. O investidor pode comprar o produto que quiser, mas vai assinar um documento dizendo que não quis responder ao questionário.
COMO INVESTIR - Qual o público que vai passar pelos questionários? Todo e qualquer investidor?
ROSALINE - Vamos começar com clientes novos comprando produtos novos e clientes antigos comprando produtos novos. A cada produto novo que você estiver comprando, vai ser aplicado o questionário. O perfil de risco deverá ser revisto anualmente.